< não vás>
<não me deixes>
<o meu homem partiu>
Daqui a nada, Rodrigo Guedes de Carvalho
27/10/13
a escuridão garante-me
< desligo a luz e a escuridão garante-me que estou de facto só, não me adianta ficar de olhos abertos no colchão à espera de uma chave na porta que não há-de vir, que não há-de vir, que não virá, que não sei se alguma vez voltará a existir, uma chave na porta que abrisse o ferrolho do meu coração sobressaltado de lebre, agora tudo me faz medo. >
Daqui a nada, Rodrigo Guedes de Carvalho
Daqui a nada, Rodrigo Guedes de Carvalho
o silêncio
< o silêncio cresce como os pulmões nas montanhas, o silêncio incha dentro do quarto como o gás em câmaras fechadas, cresce, asfixia-me, já não sei há quanto tempo estou sozinha, deixei de contar, há quanto tempo recebo aerogramas coloridos em vez de receber mãos, olhos, boca, em vez de receber a tua pele (...), em vez de te receber todo, de uma só vez, como dantes todo de uma vez como se quisesses desaparecer em mim, para um sítio onde ninguém te pudesse ir buscar, um esconderijo no meu medo que te escondesse para sempre, nenhuma chave na porta, onde estás, tens comido bem, tens frio à noite, onde estás (...) >
Daqui a nada, Rodrigo Guedes de Carvalho
Daqui a nada, Rodrigo Guedes de Carvalho
tudo, amor
< sítios que não conheço e não conhecerei nunca, sítios que só sei longe de mim, tudo, amor, longe do que planeámos, um acidente de percurso, quero acreditar, um insignificante desvio de rota, temporário e perecível, mas não, apercebo-me de que já passou demasiado tempo desde que partiste, onde estás, procuro-te de noite, estendo a mão para o teu lado da cama, e não estás, balbucio o teu nome e não te encontro, estendida de barriga para cima como os afogados, nenhuma chave na porta, sou uma mulher portuguesa que espera, como todas as mulheres portuguesas que esperam que voltes, trazendo contigo a nossa saudade portuguesa, trazendo no bolso da camisa todas as cartas tontas de amor que te enviámos como se não esperássemos que as recebesses, endereçadas para o vazio imenso, para o nada, para nós próprias, porque temos medo que saibas o quanto te amamos, porque não queremos que saibas que as noites sem ti são terríveis de suportar, que sem ti os dias se prolongam, cinzentos em vagarosos minutos (...) >
Daqui a nada, Rodrigo Guedes de Carvalho
Daqui a nada, Rodrigo Guedes de Carvalho
e doía-me, acredita
< e doía-me, acredita, (...), ser tudo isso com tanta força dentro de mim mas incapaz de o demonstrar, de o dar a entender, passei uma vida a esperar que me adivinhassem os gestos para não ter que os fazer, que me suspeitassem os desejos para mos satisfazerem antes de ter que os pedir, por isso me apercebo que falhei, que de alguma forma cheguei atrasado, por isso penso, (...), que está na altura de regressar, será tarde, irei a tempo, a noite avança, alastra de mim até se perder de vista. >
Daqui a nada, Rodrigo Guedes de Carvalho
Daqui a nada, Rodrigo Guedes de Carvalho
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